fevereiro 12, 2004

Hoje fiz as pazes com Kant

Naquele tempo, que foi o meu, em que Portugal tinha como Chefe-de-Estado um senhor conhecido como o «Cabeça de Abóbora», Américo Tomás de nome próprio, e a escola secundária, sempre que possível dividida em rapazes para um lado e raparigas para o outro, que se chamava Liceu, os manuais escolares eram abusivamente feios e malfeitos, cheios de matérias desgarradas e mal explicadas.

Os professores, pelo menos os que me calharam em sorte, da primária à faculdade – na faculdade já houve alguma mudança pois vivia-se o período “pós” 25 de Abril, mas isso seria tema para outro post – eram umas criaturas distantes e autoritárias, com ar de quem estava ali a fazer um grande frete, que passavam aulas e aulas dos diversos anos lectivos a debitar o que vinha nos manuais, discursos que tínhamos de decorar e igualmente debitar nos testes e exames se queríamos ter notas razoáveis e passar o ano.
Mesmo quando não compreendíamos nada daquilo, o que acontecia com frequência, numas disciplinas mais que outras, consoante a “queda” do aluno ser para letras ou ciências.

No meu caso pendia para ciências. E então, quando cheguei á filosofia (tirando a Lógica que gostei e até tive umas honestas brilhantes notas), nem me dei ao trabalho de tentar compreender o pensamento daqueles filósofos. Para quê? Pois se decorasse ou copiasse o resultado era o mesmo...
Quando cheguei ao Kant e á Crítica da Razão Pura (só o nome metia respeito), cujo pensamento o manual do Bonifácio – mais conhecido pelos alunos como o manual do Malifácio - resumia em meia dúzia de parágrafos com um conteúdo ainda mais “de outro planeta” que os restantes, fiz como habitual: ou seja, decorei, pespeguei nos testes e pontos de exame, esqueci e passei à frente, que eu era jovem e a vida - a verdadeira, achava eu, feita de coisas concretas e tangíveis - estava à minha espera para ser vivida.
E assim até fiquei com tempo livre para jogar uns matraquilhos com os amigos, atirar às miúdas uns inevitáveis olhos inundados das hormonas tresloucadas da idade, fazer teatro, passar umas tardes nos cafés em animado paleio e ir ao Paris ou Jardim Cinema, onde, por quatro ou cinco escudos, se viam dois filmes seguidos (às vezes até um teatro curto antes do filme e nos intervalos, feito pela maralha nova, que gostava de atirar bocas uns aos outros) em sessões de reprise.

Hoje estive a ler o post do morfeu sobre o Kant. Interessante, de facto. O homem, afinal, não era assim tão esquisito como o pintavam naqueles velhos tempos. Talvez porque, como escreve Helena Ferro de Gouveia, Kant, que morreu faz hoje duzentos anos, foi um grande filósofo defensor dos direitos humanos, da igualdade perante a lei, da cidadania mundial, da paz universal e acima de tudo do "Sapere Aude", a emancipação da razão. E naqueles velhos tempos, cá por Portugal, essas eram coisas que não interessavam ensinar ao povo.
Quase três décadas depois, fiz as pazes com o filósofo. Combinei com ele irmos beber um cafezinho juntos... , para o Immanuel (Kant) me contar aquelas coisas que pensava sobre os homens e a vida. Aposto que vou gostar de o ouvir...

Kant:
Um pensador genial com um quotidiano monótono? As novas obras biográficas mostram um outro filósofo que jogava com gosto às cartas, que apreciava uma boa refeição ou um espectáculo de teatro, que gostava de anedotas - claro que por motivo racional: o riso estimula a digestão - que se interessava pela política mundial. Naturalmente que não foram apenas os aspectos privados de Kant que mereceram a atenção dos autores (todos reconhecidos especialistas no obra do filósofo da Aufklaerung), mas a sua vida intelectual, as suas ideias e como estas foram influenciadas pelo clima da época.

Publicado por vmar em fevereiro 12, 2004 05:47 PM
Comentários

Parabéns pelo 'post'. Pela realidade a que me faz regressar e pela saudade que deixa. Mas as coisas eram assim e apenas se salvavam algumas honrosas excepções. Ainda hoje, quando leio seja o que for do José Eduardo Agualusa, me parece ter pela frente, na forma de dizer, a mãe. Dessa época de antanho e excepcional. Como professora e como pessoa. Um abraço.

Afixado por: Placard em fevereiro 12, 2004 06:18 PM

A mim ~fazia-me confusão a 'grelha' e o 'fenómeno'...

Já passou...

gostei da posta

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em fevereiro 12, 2004 09:48 PM

fico satisfeito por o post que inseri ter sido útil ainda que à posteriori...Sendo um autor dificílimo não seixa de ser um autor genial...
morfeu.

Afixado por: morfeu em fevereiro 12, 2004 11:44 PM